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Brasil registra 24 casos de sarampo e corre risco de perder certificado de eliminação da doença

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O Brasil chegou a 24 casos confirmados de sarampo na sexta-feira (7/8). São Paulo concentra 23 deles. O Rio de Janeiro registrou um. O cenário preocupa: as Américas enfrentam surtos da doença e as coberturas vacinais brasileiras despencaram nos últimos anos. Especialistas alertam para a necessidade urgente de elevar as taxas de imunização. Caso contrário, o país pode perder novamente o certificado de eliminação da circulação endêmica do sarampo, recuperado em 2024.

Apenas nos últimos quatro dias, São Paulo registrou sete novos casos, segundo a Secretaria Estadual da Saúde. Dois foram importados. Os demais estão relacionados à importação do vírus, embora a fonte de infecção ainda não tenha sido identificada em todos os episódios. O contexto regional é alarmante: os Estados Unidos enfrentam seu maior surto de sarampo em 35 anos. Outros países das Américas também registram aumento de casos.

Diante do avanço da doença, São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo adotaram uma estratégia emergencial. Todas as pessoas de seis meses a 59 anos devem se vacinar, independentemente do histórico vacinal. A medida busca elevar rapidamente a proporção de pessoas protegidas e interromper as cadeias de transmissão antes que o vírus se espalhe de forma sustentada.

"Quando a gente implanta uma vacinação independentemente de histórico vacinal para toda a população-alvo definida, você facilita o cumprimento dessa campanha e aumenta as coberturas vacinais num período curto de tempo", explica Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). "Campanha é campanha. É todo mundo vacinando num curto período de tempo."

A orientação é clara. Não sabe se vacinou? Não tem comprovação? Acha que vacinou, mas não tem certeza? Procure uma sala de vacinação. Flávia Bravo destaca ainda que "temos adultos que podem até estar vacinados e ter a comprovação, mas foram vacinados antes de um ano de idade". Essas doses podem não ser consideradas válidas para a proteção completa.

O Brasil havia recuperado em 2024 a certificação de país livre da circulação endêmica do sarampo, concedida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo Flávia Bravo, os 23 casos em São Paulo não significam perda automática desse status. "Quatro dígitos de casos é bem diferente. Ainda neste momento, não estamos em risco de perder o certificado [de eliminação do sarampo]", afirma. "Os casos foram identificados, rastreados, feito o bloqueio. Mas é um sinal de alerta."

A preocupação das autoridades sanitárias aumenta especialmente em períodos de retorno de viagens internacionais. "É um sinal de alerta, sobretudo quando a gente tem exatamente essa situação: retorno de férias e retorno dos brasileiros que foram para a Copa do Mundo, que aconteceu exatamente nos países onde a gente tem mais número de casos", observa a especialista.

Transmissão e complicações

O sarampo é uma doença altamente contagiosa. Capaz de transmitir o vírus para até 90% das pessoas próximas que não estejam imunes. A transmissão ocorre pelo ar, através de tosse, espirro, fala e até mesmo pela respiração. O período de contágio é especialmente preocupante: pode começar seis dias antes do aparecimento das manchas características na pele e seguir até quatro dias depois.

"Ele tem potencial para atingir o sistema nervoso e causar danos também ao pulmão e a outros órgãos", alerta Flávia Bravo. Os sintomas incluem febre alta, manchas vermelhas pelo corpo, tosse seca, irritação nos olhos e mal-estar intenso. As complicações são frequentes e graves. Cerca de uma em cada 20 crianças com sarampo desenvolve pneumonia. Entre uma e quatro a cada mil crianças podem apresentar encefalite aguda.

"Não são incomuns complicações como pneumonia bacteriana junto com o sarampo, por exemplo. É uma doença de criança, mas não é uma doença boba. Pode levar para a cama por muitos dias, com muitos dias de febre e risco de complicações. A complicação é mais frequente nas crianças, mas pode atingir qualquer idade", explica a diretora da SBIm. O vírus também causa um impacto temporário no sistema imunológico, aumentando a vulnerabilidade a outras infecções.

No calendário de rotina brasileiro, a proteção contra o sarampo é feita com duas doses da vacina tríplice viral, que também protege contra caxumba e rubéola. A primeira dose deve ser aplicada aos 12 meses de idade. A segunda aos 15 meses. Adolescentes e adultos que não completaram o esquema vacinal devem procurar as unidades de saúde para atualizar a caderneta.

Em situações de maior risco, bebês entre seis e 11 meses podem receber a chamada "dose zero". Mas essa aplicação não substitui as vacinas de rotina aos 12 e aos 15 meses. "Para garantir realmente esse efeito de proteção de rebanho, para que, se o vírus chegar, ele não consiga se espalhar, a gente tem que ter o esquema completo", enfatiza Flávia Bravo.

As estratégias brasileiras de vacinação mudaram ao longo das décadas. Isso pode gerar confusão sobre quem está adequadamente protegido. Para a proteção completa, são necessárias duas doses aplicadas a partir de um ano de idade, com intervalo adequado entre elas. A orientação é levar a caderneta ou comprovante de vacinação para avaliação em uma unidade de saúde.

Nos municípios de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, a recomendação atual é que todas as pessoas de seis meses a 59 anos procurem a vacinação, independentemente de terem sido imunizadas anteriormente. Nos demais municípios do país, a orientação é verificar se o esquema do Calendário Nacional de Vacinação está completo.

Proteção coletiva

A importância da cobertura vacinal elevada vai além da proteção individual. "Toda a população vacinada vai proteger também aqueles que têm contraindicação para a vacina ou são mais frágeis, os imunodeprimidos, os pacientes com doenças graves que podem evoluir mal se a gente transmitir sarampo para eles", destaca Flávia Bravo. Nenhuma vacina protege 100% das pessoas. Mas a imunização em massa reduz drasticamente o risco de transmissão.

A maioria dos casos recentes de sarampo no Brasil ocorreu em pessoas não vacinadas ou com esquema incompleto. Os bebês que adoeceram ainda não tinham idade para receber a vacinação de rotina. Isso reforça a necessidade de proteger essas crianças através da imunização coletiva. Quando a cobertura vacinal é alta, cria-se uma barreira que impede a circulação do vírus e protege também quem não pode ser imunizado.

O objetivo das autoridades de saúde é alcançar pelo menos 95% de cobertura vacinal para o sarampo. Mas essa meta não tem sido atingida de forma homogênea em todo o país. As coberturas vacinais brasileiras começaram a cair por volta de 2015 e 2016, com piora significativa durante a pandemia de covid-19. Entre os fatores que contribuíram para essa queda estão o crescimento do movimento antivacina, a disseminação de desinformação, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e a perda de confiança nas vacinas.

Nos últimos anos, o país tem apresentado recuperação gradual dos índices. O número de crianças brasileiras que não receberam sequer a primeira dose da vacina pentavalente caiu de 360 mil em 2023 para 50 mil em 2025, segundo dados do governo. No entanto, o problema da falta de homogeneidade entre os municípios persiste. Bolsões de população vulnerável permanecem.

O retorno do sarampo ao Brasil ocorre principalmente através da importação de casos por pessoas infectadas fora do país. O estudo genético do vírus permite identificar diferenças que ajudam a rastrear sua origem. Mas, ao contrário da covid-19 e da gripe, o vírus do sarampo não muda constantemente para escapar da proteção vacinal. "O vírus tem diferenças genéticas, e o estudo genético permite observar de onde eles vieram. Mas não tem mudança. É diferente da covid, é diferente de gripe", explica Flávia Bravo.

Os casos importados podem ter ligação direta com viagens ou apresentar fonte não identificada. "Ele veio de fora, mas está disseminando ali no círculo dele", observa a especialista. O controle da disseminação depende fundamentalmente de quantas pessoas protegidas o vírus encontra ao chegar em uma comunidade. Em locais com baixa cobertura vacinal, o vírus consegue se espalhar rapidamente.

A grande preocupação das autoridades sanitárias é a possibilidade de circulação autóctone. Ou seja, casos que aparecem sem vínculo epidemiológico conhecido com pessoas já infectadas e que transmitem para outras pessoas nas comunidades. "Um caso, por exemplo, que apareça em algum lugar onde não teve contato com essas pessoas já adoecidas e que transmite para outras pessoas. Essas são situações de circulação autóctone", define Flávia Bravo.

Foi exatamente esse tipo de situação que levou o Brasil a perder anteriormente o certificado de eliminação do sarampo. "Começaram a aparecer vários casos sem link epidemiológico, com transmissão nas comunidades. E aí a gente perdeu", relembra a especialista. A situação atual é diferente porque os casos estão sendo identificados e contidos. Mas o alerta permanece. "É alerta: olha lá, você pode perder. Contenha a sua situação específica epidemiológica. E vamos torcer para que a gente consiga. O trabalho está sendo feito."

Relato de quem viveu a doença

Gabriele Rodrigues Oliveira, 49 anos, moradora de Porto Alegre, contraiu sarampo aos 21 anos, em 1998. Justamente quando o Brasil caminhava para interromper a circulação endêmica do vírus. "Tudo que se conhecia sobre o sarampo na época vinha dos livros de ciência na escola e de histórias das pessoas mais velhas das famílias. Não se conhecia na prática, praticamente não se convivia com pessoas com esse tipo de doença", recorda.

"As pessoas com certeza ainda subestimam o sarampo, tanto por não terem acompanhado ninguém contaminado de perto como por não terem a real dimensão de como a doença pode evoluir para manifestações mais graves", avalia Gabriele. Seu caso não evoluiu para complicações graves. Mas ela precisou ficar em isolamento para evitar transmitir o vírus e se proteger de outras infecções.

O ano de 1998, quando Gabriele adoeceu, foi também o ano em que a revista científica The Lancet publicou um estudo fraudulento do médico britânico Andrew Wakefield sugerindo uma associação entre a vacina tríplice viral e o autismo. O artigo foi posteriormente retratado pela revista. Wakefield perdeu seu registro profissional no Reino Unido. Estudos científicos posteriores não encontraram qualquer relação entre a vacina e o autismo. Mas o episódio fortaleceu o movimento antivacina globalmente e contribuiu para a queda das coberturas vacinais em diversos países.

Para enfrentar a situação atual, o Ministério da Saúde iniciou nesta sexta-feira uma campanha nacional de multivacinação voltada a crianças e adolescentes menores de 15 anos. A campanha segue até 1º de setembro, com um "Dia D" nacional marcado para 22 de agosto. Serão disponibilizados 20 imunizantes do Calendário Nacional de Vacinação nas unidades de saúde.

O governo distribuiu 1,5 milhão de doses especificamente para a campanha. Em 2026, mais de 177 milhões de doses de diferentes vacinas foram enviadas aos Estados e ao Distrito Federal. Especificamente da tríplice viral, foram distribuídas mais de 7,2 milhões de doses. Cerca de 2,9 milhões de doses haviam sido aplicadas até o anúncio da campanha. São Paulo recebeu 3,2 milhões de doses para reforçar o abastecimento no estado.

"Estamos recuperando a cobertura vacinal, mas sempre temos que manter isso atualizado", afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao anunciar a campanha. A iniciativa busca não apenas atualizar a situação vacinal de crianças e adolescentes, mas também reforçar a conscientização sobre a importância da imunização.

Flávia Bravo enfatiza que os novos casos de sarampo servem como demonstração clara dos riscos de negligenciar a vacinação. "Essa é a comprovação viva do que acontece quando a gente se desarma, deixa de se preocupar e deixa de seguir as recomendações de vacinação", alerta. "A única maneira de bloquear o sarampo é com alta cobertura. É com vacinação."

O alerta das autoridades sanitárias não deve ficar restrito aos municípios que já registraram casos. "Em relação ao sarampo, é um apelo para o Brasil todo. Não é só para onde estão acontecendo esses casos. Todo brasileiro tem que se preocupar com isso", conclui Flávia Bravo. A campanha nacional de multivacinação segue até 1º de setembro, com o Dia D marcado para 22 de agosto.

Esta notícia foi reescrita a partir de fonte externa.

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